Espalhe por Whatsapp

Muito mais do que apenas atletas

Guilherme Borges
Guilherme Borges

O Cinza e o frio combinam com os prédios altos da cidade. Ao olhar para cima, porém, nenhum dos gigantes arranhando o céu chamam tanta atenção quanto seu alvo: a cesta. A quadra é um ambiente de contraste. O laranja da bola contrastando com o sem-cor da cidade; os barulhos do jogo, o tênis raspando na quadra, a bola batendo na tabela e depois chacoalhando as correntes; e por fim, se tudo der certo, os gritos de euforia contrastam com todos os outros sons da metrópole: O tênis do garoto negro que corre da polícia; as correntes das algemas; e, se tudo der errado, os gritos de desespero. A única coisa que não se ouve são as vozes de quem não tem esperança.

Kevin Durant durante evento da NBA Care no All-Star Weekeng

Foi nesse tipo de ambiente que a maioria dos jogadores de basquete nasceu e cresceu. Você pode pensar que isso não existe nos Estados Unidos, mas não é verdade. Grande parte dos jogadores da NBA teve uma infância difícil em um bairro pobre de uma cidade grande. Apesar disso, em razão do sistema de draft a maioria (para não dizer todos) passou, pelo menos, pela escola, até o ensino médio. Ou seja, a liga é devidamente escolarizada.

Os sonhadores encontram os seus sonhos

É bem por isso que os jogadores têm plena consciência de seu impacto nas comunidades pobres do país. Sabe aquele mantra que ouvimos aqui no Brasil: “o futebol é mais que um esporte”? Então, na NBA, essa frase deixou de ser uma ideologia bonita que enche a boca dos fãs e passou à prática. O basquete lá é realmente mais do que um esporte simplesmente porque o impacto comunitário é muito grande. Os jogadores se sentem atraídos por jogar em suas próprias cidades porque eles querem ajudar as pessoas da região em que cresceram. Da mesma forma, não é incomum encontrar fotos dos jogadores juntos quando pequenos, ou então, de um jogador mais velho com um mais novo porque a assistência prestada pela NBA permite contato direto com os atletas e entre atletas. Contato entre os sonhadores e seus sonhos.

As crianças sem voz cresceram, se tornaram inteligentes e conseguiram um microfone de alcance mundial para fazer suas vozes serem ouvidas dessa vez.

E o que tudo isso quer dizer? Bom, é matemática simples. Some atletas educados de repercussão internacional com um senso de comunidade e de luta para erradicar diferenças, preconceitos e injustiças e, também, com o impacto natural do esporte profissional e você terá a receita para incomodar muita gente. As crianças sem voz cresceram, se tornaram inteligentes e conseguiram um microfone de alcance mundial para fazer suas vozes serem ouvidas dessa vez.

"Cale a boca e vá jogar"

LeBron James durante evento social da LSB para crianças carentes de Londres

“Cale a boca e jogue bola”. Foi com essa infeliz frase que a repórter Laura Ingraham do jornal da Fox News entrou no mapa da NBA. A repórter disse isso em razão de um comentário feito por Lebron James sobre o Presidente Trump no programa UNINTERRUPTED onde também estavam Kevin Durant e Cari Champion. A resposta de Lebron veio durante o All-Star Break de 2018, depois de postar na sua conta do Instagram uma foto com os dizeres “I’am more than na athlete (sou mais do que um atleta)”. Disse o astro:

Eu com certeza não irei calar a boca e bater bola. Eu significo muito para sociedade. Significo muito para os jovens. Eu significo muito para as crianças que sentem que não tem uma oportunidade e precisam de alguém que possa lidera-los para sair da situação em que se encontram [...] Ser uma criança Afro Americana, vivendo na região pobre da cidade, sem pai, e com uma situação financeira desfavorável, e chegar onde eu cheguei... Eu com certeza venci as estatísticas. Eu ultrapassei as barreiras. LeBron James

“Calar a boca e driblar”. Se Bill Russell tivesse feito isso, o racismo teria feito mais vítimas nos Estados Unidos. Se Magic tivesse feito isso, o preconceito com as pessoas portadores do vírus HIV teria sido ainda mais duro no Estados Unidos. Se Lebron fizesse isso, mais de mil crianças em Akron (cidade de James) não teriam educação de graça (já que o atleta financiou com 41.8 milhões de dólares mais de mil estudantes). Se Lebron fizesse isso, a Nike hoje não teria um tênis que foi desenvolvido pensando em crianças portadoras de deficiências físicas (Lebron Soldier 10 FlyEase). Se Lebron fizesse isso, o Museu de História e Cultura Afro Americana não teria o alcance que hoje possui (já que o astro doou 2.5 milhões de dólares para a instituição). Se John Wall fizesse isso, a Sociedade de Leucemia e Linfoma de Washington não teria o tamanho que tem. Se Curry fizesse isso 20 mil crianças da República do Congo que receberam os pares de tênis por ele doados estariam descalças. E assim por diante. A lista de assistencialismo promovido por atletas da NBA é gigante e envolve tantas áreas que você nem imagina (como por um exemplo, proteçãode elefantes africanos, ação com a qual Al Horford se envolve).

Astros que promovem a esperança e vendem sonhos dentro e fora de quadra

Mas é muito mais do que isso. Esses atletas promovem esperanças. Eles vendem sonhos e força para continuar. Eles venceram as estatísticas de morte nos bairros pobres do Estados Unidos, vendendo que as crianças que atualmente vivem nesses bairros também podem conseguir. As ações deles são constantes através do programa NBA Cares. Ver Westbrook servindo pratos de comida no Dia de Ações de Graças é inspirador; ver Ingram pintando paredes de escola é inspirador. Eles se envolvem e dão o máximo que podem porque alguém fez isso por eles para que eles chegassem até ali. “Hoje no banco de reservas eu vi Dr. J, Kareem, Bill Russell e Jerry West. Eu simplesmente agradeci porque eles traçaram o caminho para que eu pudesse chegar até aqui.” (Lebron James). Lebron e todos os atletas da sua geração e das gerações anteriores são os altos falantes e escudos que dão voz e protegem aqueles que de alguma forma são oprimidos pela cor da pele; pelo status social; ou por qualquer outro motivo.

Gorgui Dieng tem papel importante no projeto Seed que prepara crianças e jovens na Africa a serem futuros líderes de seus países.

DeMarcus Cousins em evento social na Universidade de Kentucky

Giants of Africa: outro importante projeto Africano de educação através do basquete que tem como um dos seus principais apoiadores o jogador Luol Deng.

“Calar a boca e bater bola”. Esse seria o sonho de alguns. “Como as pessoas não podem obrigar você a dizer o que elas querem, elas fazem questão de continuar lembrando, independente do seu status social e situação econômica que, de alguma maneira, você está abaixo delas” (Lebron James). Laura, não calar a boca não é uma questão de escolha. É a única opção para aqueles que precisam do basquete para continuar a ter esperança.

Dá um play e confira o que rola no nosso som!