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O jogo que ninguém viu: O Dia que o Dream Team foi derrotado por garotos

Guilherme Borges
Guilherme Borges

O Dream Team perdeu. Isso não é um devaneio ou um surto de loucura. Antes de um time nacional virar atração internacional; antes da briga de egos; antes do famoso "rachão" que colocou Magic, Barkley, Pippen, Draxler e Ewing de um lado contra Michael Jordan, Stockton, Larry, Malone e Mullin do outro; antes de ganhar todos os jogos das olímpiadas por mais de 32 pontos de diferença; e antes de qualquer outra história que você possa conhecer desse time de astros, é importante que se diga: O Dream Team perdeu. E o mais incrível não foi o fato da derrota, mas sim, o adversário que bateu o Dream Team: um time formado só por atletas da faculdade. Não conhece essa história? Bora lá!

O time

O time todos conhecem: Stockton, Malone, Magic, Larry, Jordan, Barkley, Ewing, Robinson, Pippen, Drexler, Mullin, e um único jogador que não era da NBA e que não se tornou uma lenda depois, o menino, Christian Laettner, que era uma das estrelas da NCAA na época. O treinador, foi Chuck Daly, técnico dos Bad Boys durante as conquistas dos campeonatos da NBA em 89 e 90 (Detroit Pistons). Entre os assistentes, nosso conhecido, Mike Krzyzewski, ou, "Coach K".

Nem é preciso discorrer sobre a importância desse time, mas vale lembrar que foi a primeira vez que a seleção norte americana levou seus atletas profissionais para a competição (já que a participação de atletas profissionais, no basquete olímpico, era proibida pela FIBA). Além disso, foi um verdadeiro trabalho para o executivo da NBA, Rob Thorn, convencer as maiores estrelas da época a participarem da seleção norte americana. Michael, por um exemplo, preferia jogar golf nas férias, e na verdade, buscava, como ele mesmo afirmou "arranjar um jeito educado de dizer que não queria participar". Apesar de ter sido o primeiro convocado, ele só deu resposta a Thorn quando todos os outros jogadores e estrelas já tinham sido confirmados. Jordan, anos depois, deixou claro qual foi a razão pela qual aceitou o convite: “representar o meu país era importante, claro, mas a minha maior motivação foi o fato de poder passar um tempo com os caras contra quem eu estava sempre competindo".

A partida

O Primeiro treino da equipe foi em 22 de Junho e 1992. E foi um desastre. Os jogadores acabaram por levar todos os momentos com bola para o lado pessoal. O treino rapidamente se tornou em uma disputa para ver quem era o "Alpha" do time. Barkley disputava com Malone. Magic com Larry e Jordan. Pippen com Stockton e assim por diante. Contaminados pela rivalidade construída na NBA, os jogadores não conseguiam desempenhar um basquete em equipe. Esse treino não foi tão importante, mas demonstrou como o "tiro" poderia sair pela "culatra" caso nada fosse feito. Uma semana depois, essa mesma seleção caótica fez um treino que definiu o destino do time.

Imagine você, com seus 18 anos, recém-chegado em uma faculdade, recebendo a ligação de Zagallo dizendo "então, sabe o que eu queria? Queria que você viesse bater uma bola com Pelé, Zico, Sócrates, Ronaldo Fenômeno, Rivaldo e Cia (se isso fosse possível) ". Tudo bem, eu exagerei, mas a história foi mais ou menos assim. O Estados Unidos sempre escolhe um USA Select Team, que é o time que irá auxiliar a seleção norte americana nos treinos preparatórios para a olimpíadas. No que consiste essa “ajuda”? Bom, em ser massacrado nos “rachões”. Normalmente esses times são formados por calouros e segundo anistas da NBA.

Chris Webber

Chris Webber era um dos garotos que venceu o Dream Team

O basquete universitário da América do Norte já era uma potência na época, sendo que, inclusive, era dele que os Estados Unidos, antes de 1992, tirava seus atletas para compor a seleção norte americana de basquete. O nível era muito mais forte e a NCAA muito mais organizada que uma porção de ligas espalhadas pelo mundo. Chuck não chamou atletas desconhecidos, é verdade, mas sim, algumas estrelas do basquete universitário que, posteriormente, inclusive, se tornaram bons jogadores na NBA, como por um exemplo Chris Webber que tinha acabado de fazer sua primeira temporada no “Fab Five” do “Michigan Wolverines”. Não só ele, mas outros nomes como Grant Hill, Bobby Hurley, e Penny Hardway também estiveram presentes

Então era isso. 5 Jogadores da universidade enfrentando, 11 das maiores lendas que a NBA já viu. Por mais que os meninos não fossem "um bando de desconhecidos", ninguém esperava que eles vencessem o jogo. A partida foi inesperada no resultado, e na forma pela qual foi conduzida.

Não sabíamos jogar juntos. Não queríamos nos sobrepor uns aos outros, nem machucar os egos. Os jovens estavam nos matando. Scottie Pippen

Jack McCallum, autor do livro “Dream Team” analisando o jogo, observou: "todos esperavam que, durante o jogo, cada um dos jogadores iria querer a bola pra si (...). O que aconteceu foi justamente o contrário. Eles estavam passando a bola mais do que deveriam". Pippen declarou: "nós não sabíamos jogar juntos. Não queríamos nos sobrepor uns aos outros, nem machucar os egos. Os jovens estavam nos matando." Deixar o ego de lado foi a faca que matou a seleção norte americana. Os garotos jogaram como nunca. Resultado Final: 62X54 para o time dos universitários. Um baque. O treino foi fechado, a imprensa não participou. Chuck, então, ordenou que o placar fosse apagado antes que a mídia entrasse no ginásio. Os jornalistas chegaram logo após a partida, e, mesmo sem ter acompanhado o jogo, sentiram que algo estava diferente no ambiente. Larry fechou o dia com uma frase que na hora surpreendeu muitos repórteres, já que eles não sabiam o que tinha acabado de acontecer: "acho que alguns desses jogadores [da NCAA] deveriam estar aqui nessa equipe".

A história por trás da história

Tudo bem, eu te contei a versão "hollywoodiana" desse acontecimento. Contudo, existe uma verdadeira história por trás da história, e quem conta, é o Coach K. Para o treinador de Duke, Chuck entregou o jogo de propósito, só para fazer com que aquele bando de astros começasse a ouvi-lo. Ele declarou: "Chuck entregou o jogo. Michael ficou no banco boa parte da partida. Toda vez que eu ia comentar algo com Chuck para que ele fizesse mudanças, ele me respondia 'estamos bem mike, estamos bem'. As substituições que ele fez... ele não fazia nenhum ajuste. Chuck sabia o que estava fazendo. Esses garotos acreditavam no Papai Noel, e agora que eles cresceram, sinto muito, mas devo estourar a bolha de ilusão que eles vivem, Chuck entregou aquele jogo".

Foi satisfatório para Chuck ver que perdemos desse jeito, porque agora, teríamos que lhe dar ouvidos. Michael Jordan

É claro, essa declaração faz muito sentido, ainda mais considerando que Chuck era um mestre em lidar com pessoas, e principalmente, com estrelas, experiência adquirida com os Bad Boys. Ele sabia que se os jogadores ficassem arrogantes, eles jamais o ouviriam, e que no final, a seleção poderia perder. "Foi satisfatório para Chuck ver que perdemos desse jeito, porque agora, teríamos que lhe dar ouvidos.", diz Michael. Malone complementa: "O discurso dele foi: qualquer um pode perder, então vocês devem estar preparados para jogar. Foi o único sermão que ele nos deu". O Plano de Chuck deu certo. No dia seguinte, o treino acabou com um outra pelada entre o Dream Team e os universitários. Dessa vez, as estrelas saíram vitoriosas, e embora o placar não tenha sido divulgado, todos que estavam no local afirmam que os garotos quase não marcaram cesta.

Essa versão é muito mais digerível, já que é impossível imaginar a provável equipe mais dominante da história de qualquer esporte perdendo para um "bando de garotos" da universidade (ainda que eles jogassem muito bem e tivessem potencial para já estarem na NBA). Apesar disso, Chuck nunca confirmou essa teoria do Coach K. Na história, ficam registrados somente os fatos. O que aconteceu foi: O Dream Team Perdeu. O resto, nós deixamos para sua imaginação.