NCAA X G-League: qual o melhor modelo para formar jogadores?
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NCAA X G-League: qual o melhor modelo para formar jogadores?

Ricardo Romanelli
Ricardo Romanelli

Existe um debate crescente na comunidade do basquete sobre o modelo de negócios da NCAA. Composta por atletas universitários em nível amador, a liga se tornou um produto bastante lucrativo para quem opera o sistema. Com as receitas da liga chegando a US$ 1 bilhão de dólares, as conversas sobre a distribuição deste dinheiro chegaram a um ponto onde, aparentemente, estamos próximos a uma mudança de paradigma.

Se por um lado alguns defendem que a NCAA deva começar a remunerar os atletas, há também quem pense que a NBA deveria buscar maneiras de fortalecer a G-League, sua liga auxiliar de desenvolvimento de atletas, para que se tornasse uma ponte para o Draft da NBA, num sistema similar às minor leagues do baseball.

De maneira simplificada, hoje um jogador precisa ter 19 anos de idade e pelo menos um ano de experiência profissional ou universitária depois do basquete colegial. Existem outras nuances e detalhes envolvidos, mas a regra geral é essa. A proposta defendida por alguns, e já comentada pelo comissário Adam Silver, é de que jogadores saiam direto do High School para a G-League, como maneira de cumprir o requisito de um ano de profissional para poderem entrar no Draft.

Um dos entusiastas desta ideia é o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, grande fã de basquete. Em entrevista recente, perguntado sobre o que ele mudaria no modelo da NBA, e Obama falou sobre o sistema de recrutamento:

Há a necessidade de criar uma liga de desenvolvimento bem estruturada para que a NCAA não sirva como sistema de recrutamento para estes garotos que não recebem nenhum pagamento, mas estão sobre enormes pressões econômicas. Não é uma maneira sustentável de fazer negócios. E aí todos reagem com surpresa que um garoto com origem extremamente humilde, que potencialmente pode ganhar cinco, dez, quinze milhões de dólares está sendo marcado por todos em um contexto no qual pessoas estão ganhando bilhões de dólares. Isto não é bom.

O astro LeBron James, do Cleveland Cavaliers, também falou a respeito. Ele prometeu falar com Adam Silver sobre o assunto, citando as categorias de base do futebol como exemplo de sucesso. Talvez LeBron tenha em mente algo diferente do atual Draft da NBA com esta proposta, mas não deixou claro.

Silver tem estimulado franquias a abrirem filiais na G-League. Ao longo dos anos, o modelo da liga, que já se chamou NBDL e D-League, foi evoluindo. Antes, para reduzir custos, normalmente as franquias da NBA se juntavam em duas ou três para serem donas de um time na liga de desenvolvimento. Atualmente, apenas Denver Nuggets, New Orleans Pelicans e Portland Trail Blazers não possuem times na liga. O Washington Wizards terá uma franquia na próxima temporada.

O fortalecimento da G-League como porta de entrada para a NBA, como toda ideia alternativa a uma realidade, possui suas vantagens e desvantagens. Tentamos analisar alguns dos principais pontos envolvidos neste processo.

1. Desenvolvimento de novos mercados

Não é segredo que a NBA deseja expandir a liga, afim de explorar novos e maiores mercados, inclusive fora dos EUA. Uma G-League mais forte poderia servir para estabelecer times em cidades que são candidatas a ter uma franquia da NBA, para já medir como aquele mercado funcionaria para a liga. Do ponto de vista de negócios, é uma excelente alternativa. É importante salientar que, mais do que maior justiça nos pagamentos, a NBA está visando o lucro que a NCAA atualmente gera como sistema de recrutamento.

2. Conflito de interesses das franquias

Este é, provavelmente, o ponto mais delicado. Os atletas poderiam assinar livremente com qualquer time da G-League? Estes times pertencem a franquias da NBA, como isso funcionaria em relação ao Draft? O time que tivesse esse jogador teria informações muito melhores que os outros para fundamentar uma escolha de Draft. Além disso, times poderiam tomar decisões sobre colocar ou não determinados jogadores em quadra de maneira a aumentar ou diminuir sua cotação no Draft, com base nas escolhas que as franquias-mãe da NBA teriam no próximo recrutamento. São questões importantes, mas um modelo confiável poderia ser desenvolvido entre os membros da liga de maneira satisfatória, caso houvesse empenho para tanto.

3. Desenvolvimento dos jogadores

Existe um mito bastante propagada midiaticamente de que o NCAA é uma plataforma perfeita para o desenvolvimento de jovens prospectos, mas a coisa não é exatamente assim, ainda mais na era dos one-and-dones. Atletas ficam poucos meses realmente jogando basquete universitário (quando nos restringimos a elite dos atletas, que estão na primeira rodada), com pouco tempo pra trabalhar seu jogo por ali. Além do mais, a estrutura da NBA é, teoricamente, melhor preparada para o desenvolvimento de um atleta, com comissões técnicas maiores, mais especializadas e que lidam com uma elite maior de talento. A G-League, em tese, seria uma expansão disso, em que os clubes usam da liga para colocar atletas inexperientes para ganhar cancha e desenvolver aspectos de seu jogo em esquema tático e filosofia parecidas com a da franquia correspondente à NBA.

A questão é que a Liga de Desenvolvimento é mais uma liga das oportunidades do que do aprimoramento em si. São poucas as franquias que fazem um uso mais aprofundado deste sistema (notadamente, San Antonio Spurs e Houston Rockets), é comum que os clubes sejam dominados por veteranos fominhas em busca de uma oportunidade rara para pegar contratos de 10 dias ou não-garantidos. Mesmo ali dentro existe um foco nas vitórias, com técnicos e jogadores malucos por aumentar seu valor de mercado. Não é incomum que jovens que, em tese, deveriam estar ganhando minutos e se desenvolvendo ficarem abandonados na rotação, como o caso do brasileiro George de Paula. Se o NCAA está tendo uma crise de credibilidade e o desenvolvimento de atletas seja questionável em muitos cenários, é notável que a G-League não está pronta para isso. Que tipo de incentivo uma franquia da Liga de Desenvolvimento tem para receber um jovem, mais cru e menos experiente, em troca de desenvolvê-lo como prospectos. O cenário não ajuda muito nisso, é de se pensar que mesmo os veteranos da liga possam torcer os olhos por verem moleques muito mais jovens tentando tomar um espaço que não foi consolidado por ninguém.

4. Potencial econômico

A NCAA, com receitas de US$ 1 bilhão de dólares, já mostrou que há muito dinheiro a ser feito neste ramo. Talvez a NBA, com a força de mídia mundial que possui, contratos de televisão, e um interesse comercial declarado (que a NCAA não pode ter), consiga ter receitas maiores ainda. Mas como fica a divisão destas receitas? Pelo acordo coletivo de trabalho vigente entre a liga e a união dos jogadores, hoje os jogadores recebem entre 49 e 51% do total das receitas relacionadas ao basquete auferidas pela liga. As receitas desta nova G-League entrariam na conta? E como seria a remuneração dos atletas que atuam na liga de desenvolvimento? Atualmente, os salários da G-League não costumam passar de US$ 25 mil, o que é muito pouco.

É claro que existem outras nuances importantes neste debate, mas os pontos citados com certeza estarão no centro da conversa. A NBA parece estar se mexendo cada vez mais nesta direção, e é importante que a conversa em torno do assunto se apresente. Afinal, qual a melhor maneira de garantir que jovens jogadores cheguem na NBA mais preparados?

Gabriel Andrade, colaborou para a edição desta matéria ao lado de Ricardo Romanelli.

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