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A atitude que mudou o destino de Joel Embiid

Thiago Agovino
Thiago Agovino

Camarões não tinha muita tradição no basquete, mas este cenário está mudando. Hoje, o país conta com três representantes na NBA, Luc Richard Mbah a Moute, de 30 anos, ala do Clippers, Joel Embiid, de 22 anos, pivô do Sixers e Pascal Siakam, também com 22 anos, ala do Raptors. Apesar da história da representatividade do país liga americana não ter começado com estes atletas, um deles teve vital importância na ascensão do país no mundo da NBA.

O primeiro representante de Camarões na Liga foi Ruben Boumtje-Boumtje, que atuou em 44 jogos pelo Portland Trail Blazers, de 2001 a 2004, com média de menos de 1 ponto por partida. Ruben praticamente passou despercebido, então, é possível dizer que Luc Mbah a Moute foi o primeiro que literalmente solidificou a presença de Camarões na NBA.

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Mas, não foi somente a presença de Luc que contribuiu para a chegada de outros atletas, foi também fazer aquele algo a mais. Em diversos países, inclusive aqui no Brasil, o basquete sofre com falta de estrutura, de incentivos tanto públicos quanto privados. Em muitas oportunidades, são os próprios jogadores que realizam ações para desenvolvimento do esporte. Em uma delas, Luc Richard Mbah a Moute contribuiu na descoberta de um novo candidato à estrela da NBA no futuro.

Antes de contarmos esta história, vale a pena saber como começou a paixão de Luc pelo basquete. Na verdade, Mbah a Moute descobriu esta paixão por acidente, pois era um praticante de futebol. Para ir aos treinos, ele passava por uma quadra improvisada de basquete, em Etoa-Meki, região nordeste de Yaoundé, capital de Camarões. Esta quadra ficava quase sempre vazia, mas, um belo dia, a presença de jovens jogando chamou sua atenção. Ele passou por ali mais três vezes em uma semana. No terceiro dia, ele parou. Não tinha ninguém por perto. Ele estava com sua bola de futebol e a curiosidade de arremessa-la ao cesto foi maior do que a de seguir caminho para casa. Luc então lançou a bola. Não foi um chuá, mas bastou para provocar aquele sentimento que nós conhecemos bem.

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A partir disso, Luc se envolveria com o basquete ao ponto de não ter mais volta. Em 2003, com 16 anos, Mbah a Moute foi escolhido para jogar no Basquete Sem Fronteiras e se destacou. Era a hora de tentar a sorte nos EUA, mas esta não seria uma decisão fácil. O pai de Luc, Camille Moute a Bidias, que jogou futebol por dois anos profissionalmente, desistiu da carreira pois seu pai acreditava que o esporte era uma opção somente para quem não conseguia ter sucesso na vida. Camille quis que seu filho Luc tivesse a chance de escolher. “Eu não quis fazer o que meu pai fez comigo” disse Camille. “Então eu disse, ‘Vá. Vamos ver como você se sai’. Nunca passou pela minha cabeça que Luc estaria na NBA”.

Em 2010, Luc estava no seu terceiro ano na Liga e seus pais o lembraram do que esperavam dele: sua bonança deveria ser compartilhada no seu país. Era costume de família ajudar as pessoas, então Luc decidiu criar um camp de treinamentos e clínicas de basquete em Camarões, construir quadras, assim a seleção nacional também não precisaria ir treinar fora do país.

A descoberta de Embiid

Esta ação de Luc foi determinante para a descoberta de Joel Embiid. No verão de 2011, Embiid foi convidado para um destes camps de treinamentos organizados por Luc, mas não pense que ele chegou lá como um puro jogador de basquete. Ele só vinha praticando de forma organizada o esporte há pouco mais de três meses. O mais curioso é que Embiid tinha praticamente tudo certo para ir à Europa treinar vôlei, com o objetivo de se candidatar à uma vaga na seleção nacional. Este era um desejo do seu pai, Thomas Embiid. Uma das frases mais marcantes de seu pai para descrever as aspirações de seu filho no basquete foi que “ninguém joga basquete em Camarões”.

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Um dos Camps organizados por Luc pela África

O processo para descobrir Embiid foi iniciado pelo seu tio. Ele entrou em contato com Joe Touomou, observador do Indiana Pacers, o mesmo que convenceu Luc Mbah a Moute a tentar a sorte nos EUA. O tio de Joel reportou à Touomou que seu sobrinho crescia muito rápido e era muito atlético, então, Joe não teve dúvidas, partiu para Yaoundé atrás de Embiid. Quando encontrou o garoto, ele percebeu na hora que o menino, por praticar vôlei, tinha grande impulsão e se movimentava de forma rápida.

Guy Moudio, o mesmo treinador que comandou Luc no Basquete Sem Fronteiras, treinou Embiid por três meses antes do início do camp de Luc. Antes, os jogos de basquete para Embiid eram apenas brincadeiras pelas quadras de rua, onde Joel imitava Kobe Bryant, que na época vencia as Finais da NBA pelo Lakers contra o Magic, em 2009. Todas as vezes que Embiid arremessava uma bola, ele imitava os movimentos de Bryant e gritava “Kobeeee”.

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Joel Embiid, uma estrela em ascensão de Camarões

No primeiro dia do camp Joel estava muito nervoso, mas, no segundo dia ele surpreendeu. Embiid recebeu uma bola no post no melhor estilo Hakeem Olajuwon. Touomou tinha entregado fitas de jogadas de Hakeem para Joel assistir. Aconteceu como no vídeo. Ele recebeu o passe, fez uma sequência de dribles e explodiu em direção a cesta. Mbah a Moute via pela primeira vez Joel em ação. Ele virou para os treinadores e perguntou, “Por quanto tempo você falou que este garoto vem jogando? ”. Luc explica o que viu naquele dia. “Eu conheci caras na NBA que por anos não conseguiam fazer aquilo”, disse.

Hoje, Embiid é visto como uma das futuras estrelas da NBA. O aspirante a jogador de vôlei teve a chance de redefinir seu destino através das ações de Luc. “Sem aquele camp”, disse Embiid, “como alguém iria me achar? ”. Atualmente, o basquete está encontrando seu caminho no país. É comum em uma tarde de sábado, em dia de torneio no Club Noah em Yaoundé, o complexo esportivo estar lotado. O nome do clube é uma homenagem ao sr. Zacharie Noah, avô do pivô do Knicks, Joakim Noah, pelos anos de incentivos ao esporte que ele proporcionou. Um dos juízes que apita os jogos do torneio, Paul Bofia, definiu bem como era o basquete antes e como é agora em Camarões. “Costumava ser, ‘porque perder seu tempo jogando basquete? ’”, disse Bofia. “Não é mais assim”.

Hoje, os jovens jogadores de camarões não precisam somente imitar Kobe Bryant ou LeBron James. Muitos deles querem ser como Joel Embiid.

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