Kawhi chega ao media day do Raptors com muito a explicar
Kawhi Leonard fala na segunda no media day do Raptors pela primeira vez desde a punição da NBA. O que ele já disse e o que ainda precisa explicar.
Kawhi Leonard dá a primeira entrevista como jogador do Raptors na segunda, 28 de setembro, às 10h de Brasília, no media day do time. Ele chega com uma conta aberta: até aqui, só falou por escrito sobre a punição da NBA, culpou pessoas próximas e negou saber de qualquer plano para burlar o teto salarial.
- A NBA mandou Leonard pagar US$ 700 mil à liga, sem suspensão e sem anular contrato.
- O Clippers perdeu cinco escolhas de primeira rodada e levou multa de US$ 30 milhões.
- Dennis Robertson, tio e ex-empresário dele, está banido de negociar com times por cinco anos.
- A extensão com Toronto vale dois anos e US$ 115 milhões, com opção do jogador no segundo.
- Depois do media day, o training camp segue em Quebec City, na Université Laval.
O que Kawhi já disse por escrito sobre a punição da NBA
A única manifestação dele veio em 2 de setembro, no Instagram, horas depois de a liga anunciar a punição mais pesada da história por burla ao teto. A nota tem quatro parágrafos curtos e uma frase que resume a estratégia inteira.
Assumo total responsabilidade pelos lapsos de julgamento de pessoas do meu círculo próximo e lamento a distração que essa situação causou aos torcedores e à minha família.
Logo em seguida, ele se afasta do centro do caso: “Assinei meu contrato com o Clippers, assim como os acordos em questão, de boa-fé, totalmente comprometido a cumprir minhas obrigações e sem nenhum conhecimento de intenção de alguém de burlar o teto salarial.” E fecha olhando para o Canadá: “Ao voltar a Toronto, estou focado no que posso controlar, em encerrar este capítulo e em seguir em frente com a ficha limpa.”
Assumir a responsabilidade pelo erro dos outros é uma fórmula que funciona em nota oficial. Diante de microfone, com perguntas de repórter que acompanhou o caso por um ano, ela costuma durar pouco.
Quem é o círculo próximo que Kawhi culpou
A nota não cita nomes, mas a decisão da liga cita. Segundo a NBA, Leonard violou as regras “por meio de” Dennis Robertson, seu tio e então gerente de negócios, pressionando o Clippers a ajudá-lo a conseguir renda fora de quadra, obtendo essas oportunidades e deixando de reembolsar despesas pessoais pagas pelo time.
É aí que mora a primeira pergunta de segunda. A liga atribuiu a violação ao jogador, ainda que pela mão do tio, e Robertson ficou cinco anos proibido de tratar de negócios com qualquer time. Leonard ainda não disse o que sabia dos acordos que o tio fechava em nome dele.
Os US$ 28 milhões da Aspiration que a nota não explica
O contrato que abriu o caso foi assinado em abril de 2022 com a Aspiration, empresa de tecnologia financeira que patrocinava o Clippers, e valia US$ 28 milhões. A reportagem de Pablo Torre que expôs o acordo, em setembro de 2025, apontou que o trabalho previsto nunca foi entregue. A empresa pediu falência em março de 2025.
Em agosto, a apuração da liga não encontrou prova de que Steve Ballmer tenha desviado dinheiro para o jogador por meio da empresa. A decisão final, de 2 de setembro, foi por outro caminho: puniu o Clippers por intermediar oportunidades de renda entre Leonard e quatro empresas que faziam negócio com o time, a Aspiration entre elas. A nota de Kawhi fala em “acordos em questão” e não diz o que ele fez, ou deixou de fazer, para receber por eles.
Como Kawhi saiu de Los Angeles depois de sete temporadas
Toronto e Clippers acertaram o negócio em 30 de junho, mas ele só foi oficializado em 14 de setembro, depois do fim da investigação. Foram para Los Angeles Brandon Ingram, Gradey Dick, primeiras rodadas de 2031 e 2033, uma troca de escolhas em 2027 e duas segundas rodadas.
Leonard deixa o Clippers depois de sete temporadas, e a nota menciona o time só para falar do contrato. Nove dias depois da troca, ele assinou a extensão abrindo mão do bônus de troca de US$ 7,45 milhões e aceitando US$ 11 milhões a menos que o máximo que podia receber.
O joelho que decide se a extensão até 2029 vale o preço
Leonard rompeu parcialmente o ligamento cruzado anterior do joelho direito nos playoffs de 2021 e perdeu toda a temporada seguinte. Em 2024-25, uma inflamação no mesmo joelho o limitou a 37 jogos. A temporada passada foi a exceção: 65 partidas e 27,9 pontos por jogo, a melhor média da carreira, aos 34 anos.
A extensão só começa em 2027-28, quando ele terá 36, e o segundo ano depende de uma decisão dele. Em 2018-19, no ano do título, ele jogou 60 dos 82 jogos da temporada regular, com descanso programado pela comissão técnica. A pergunta sobre como será agora é a menos polêmica da lista, e talvez a que mais importe para Toronto.
O que Bobby Webster espera de Kawhi no Raptors
Masai Ujiri, que montou o time campeão de 2019, hoje é presidente do Mavs. Quem fala pelo Raptors é o gerente geral Bobby Webster, que deu entrevista coletiva em 24 de setembro, no OVO Athletic Centre.
Sobre a espera, ele disse que o time fez a lição de casa antes de aceitar o risco: “Fizemos a nossa diligência, tivemos as conversas que precisávamos ter. Tínhamos confiança, acho que essa é a coisa mais importante, confiança de que em algum momento o negócio sairia.” Sobre a extensão rápida, explicou que o pedido partiu do próprio jogador: “Quando acertamos a troca, conversando com o Kawhi e com o representante dele, ele não queria que isso fosse uma coisa de curto prazo. Ele queria ficar aqui por um tempo.”
Webster também tentou baixar a nostalgia: “Vão ser muitas as vezes em que vamos ficar tentados a comparar isso com 2019. Acho que precisamos focar principalmente em seguir em frente.” O plano em quadra está no quinteto do Raptors com Kawhi, ao lado de Quickley, Barrett, Barnes e Poeltl.
O time já disse o que queria dizer. Na segunda, às 10h de Brasília, a palavra é de Leonard, que nunca foi de entrevistas longas e agora tem pela frente US$ 700 mil devidos à liga, um tio banido e US$ 28 milhões de um contrato que ninguém viu cumprido.
Nota de Leonard conferida na publicação da TSN de 2 de setembro de 2026, e falas de Webster na reportagem da Canadian Press de 24 de setembro de 2026.








