Quais times do Brasil mais devem sem o dinheiro das bets
Os times da Série A devem R$ 17,3 bi e faturaram R$ 14,3 bi em 2025. Com o fim das bets, quem investe em SAF passou a olhar o Brasil com cautela.
Com o fim das bets, o futebol brasileiro perde cerca de R$ 1 bilhão por ano justamente quando tentava atrair bancos e investidores. E perde devendo mais do que fatura: os times da Série A fecharam 2025 com R$ 17,3 bilhões em dívidas e R$ 14,3 bilhões em receitas, segundo o Relatório Convocados.
- Em 2024, as bets tinham pago R$ 618 milhões à Série A; o salto foi de 67%.
- Elas já respondiam por 34% da receita comercial dos times, ante 30% um ano antes.
- Só três compras de controle de SAF aconteceram entre maio de 2025 e abril de 2026.
- A SAF do Botafogo, em recuperação judicial desde maio, perdeu US$ 10 milhões anuais da VBet.
A dívida dos times da Série A já passa da receita de um ano inteiro
O relatório anual do economista Cesar Grafietti, feito com a consultoria Outfield e patrocinado pela gestora Galapagos Capital, separa o que o futebol fatura do que ele deve. Postos na mesma escala, os números mostram o tamanho da fatia que as apostas deixam vazia.
| Conta de 2025 | R$ bilhões |
|---|---|
Dívida líquida Série A e dívidas relevantes da Série B | 17,3 alta de 15% |
Receita total Série A, com vendas de atletas e Mundial | 14,3 alta de 32% |
Receita recorrente o que se repete todo ano | 9,5 |
Receita comercial patrocínio, licenciamento e afins | 3,1 |
Dinheiro das bets o que a MP tirou | 1,03 alta de 67% |
A dívida de R$ 17,3 bilhões supera em R$ 3 bilhões tudo o que a Série A faturou em 2025, um ano inflado por vendas recordes de atletas e pelos prêmios do Mundial de Clubes. Contra a receita recorrente, de R$ 9,5 bilhões, a alavancagem chega a 1,88 vez, segundo o relatório. Os times ainda tiveram R$ 1,1 bilhão de prejuízo somado. Nessa conta, o R$ 1 bilhão das bets equivale a quase 10% do faturamento recorrente, disse Grafietti à Reuters.
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Por que quem investe em SAF passou a olhar o Brasil com cautela
A Lei da SAF, de 2021, abriu os times a sócios de fora, e bancos como BTG Pactual e XP passaram a montar linhas de financiamento para o setor, segundo a Bloomberg. A medida provisória de 25 de setembro mudou o cálculo. Grafietti disse à agência, em reportagem de 30 de setembro republicada pelo InvestNews, que a forma como a proibição foi feita leva o investidor a olhar o Brasil com cautela. No mesmo dia, explicou à Reuters o efeito no caixa:
Começa a ter uma reação em cadeia: você é obrigado a vender jogadores e os valores começam a cair, jogadores com contratos a serem renovados podem permanecer com salários menores, e as contratações tendem a não acontecer com os valores que temos visto.
O mercado já andava parado antes da MP. O Relatório Convocados conta 130 SAFs no país, mas registra só três aquisições majoritárias entre maio de 2025 e abril de 2026, o que ele chama de “baixa liquidez de mercado”. O crédito também encolheu. O texto do relatório diz que as dívidas com bancos caíram “possivelmente por força da falta de lastro para elas. O mercado financeiro opera com garantias, e os clubes possuem valores limitados para oferecerem”.
Em 19 de setembro, antes de a proibição ser assinada, Grafietti já apontava ao Terra onde estava o risco: “O futebol não vai acabar, mas algum ajuste de custos terá que ser feito. (…) O problema do movimento atual é o risco de corte abrupto, sem organização, nem plano de ajuste”.
Botafogo diz ao STF que a VBet pagava parte do plano de recuperação da SAF
A SAF que leva o problema mais longe é a do Botafogo, em recuperação judicial desde maio de 2026. O patrocínio máster da VBet, de cerca de US$ 10 milhões por ano até dezembro de 2027, entrava no fluxo de caixa apresentado aos credores, conforme o pedido que o time protocolou no STF em 1º de outubro, relatado pelo Poder360. No documento, citado pelo g1, a SAF escreve: “A supressão abrupta do patrocínio não atinge, portanto, apenas o CLUBE: compromete a execução de um plano de recuperação sob supervisão judicial, com reflexo sobre todos seus credores”.
Enquanto o processo corre, o espaço da bet no uniforme de treino passou a exibir o Camisa 7, programa de sócio-torcedor do próprio Botafogo, segundo o FogãoNET. A SAF também aparece no topo da dívida: Atlético-MG, Botafogo e Corinthians somam 43% de tudo o que a Série A deve, de acordo com o relatório. O Cruzeiro, outra SAF, entrou no pedido coletivo de 16 times ao Supremo, e o Flamengo, que é associação, trocou a Betano por um protesto na camisa.
Lula cobra que os times virem empresa, e o dono de SAF fica sem a receita
O presidente usa a própria Lei da SAF como resposta aos times. Em 28 de setembro, disse: “Os clubes que se virem, nós já aprovamos a lei que os clubes podem virar empresa, agora é preciso colocar gente de competência para (administrar) a empresa”, segundo a Reuters. Na noite de 8 de outubro, em Brasília, voltou ao tema, conforme o Bahia Notícias: “Os times podem virar empresas. Vocês estão lembrados que há três décadas todo mundo só falava em virar empresa. Agora pode virar empresa, por que não estão virando?”.
O problema é que as SAFs que já existem, como Botafogo, Cruzeiro, Vasco e Atlético-MG, perderam o mesmo patrocínio de bet que os times associativos. O governo discutiu uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões para times e SAFs trocarem dívida cara por prazo de até 20 anos, segundo o UOL, citado pela Exame em 27 de setembro, mas a proposta não foi formalizada.
O que ainda pode mudar a MP das bets no Congresso e no STF
O prazo para deputados e senadores apresentarem emendas à MP 1.394 terminou na terça-feira, 13 de outubro, e a comissão mista ainda não tem relator, segundo o BNLData. A partir de 9 de novembro, o texto passa a trancar a pauta. No Supremo, o ministro Luiz Fux, relator das ações, ainda não decidiu os pedidos de suspensão, e mais de 20 times pediram para participar dos processos.
Até lá, quem tem dinheiro em uma SAF assiste ao Brasileirão sem saber se a principal fonte de patrocínio volta em 2027. As autorizações das casas de apostas serão extintas em 25 de outubro, e as dívidas de R$ 17,3 bilhões continuam no balanço.
Números de 2025 conforme o Relatório Convocados 2026, de Cesar Grafietti com a Outfield e a Galapagos Capital; fala de Grafietti sobre o investidor conforme a Bloomberg, republicada pelo InvestNews em 30 de setembro de 2026; falas de Grafietti conforme a Reuters, em 30 de setembro, e o Terra, em 19 de setembro; pedido do Botafogo ao STF conforme o Poder360, em 2 de outubro, e o g1; uniforme de treino conforme o FogãoNET, em 5 de outubro; falas de Lula conforme a Reuters, em 30 de setembro, e o Bahia Notícias, em 9 de outubro; linha de crédito conforme a Exame, em 27 de setembro; andamento da MP conforme o BNLData, em 13 de outubro de 2026.
Por Redação Hoop78. Como apuramos e corrigimos: política editorial.








