Hand-checking: a regra que mudou o basquete e a NBA
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Hand-checking: a regra que mudou o basquete e a NBA

Ricardo Romanelli
Ricardo Romanelli

*Para este texto colaborou Renan Ronchi, entusiasta do basquete de longa data, com curso de arbitragem da Federação Paulista de Basquete.

Você certamente já ouviu falar que alguns jogadores fizeram a NBA alterar as regras do jogo para diminuir seu impacto. George Mikan, Bill Russell, Kareem Abdul-Jabbar e Shaquille O’neal são alguns deles. Mas você sabia que talvez a mudança que teve maior impacto no equilíbrio de forças da liga seja uma relacionada à maneira como os jogadores de defesa atuam no perímetro?

Estamos falando da regra de “hand-checking”, em tradução livre, “marcação com as mãos”. Basicamente, a regra que estabelece os limites com os quais defensores no perímetro podem tocar no adversário.Image titleEsta regra já sofreu algumas mudanças no decorrer do tempo, conforme este breve resumo:

1 – 1978-79

Regra: segurar e empurrar um adversário tornou-se proibido. O jogador poderia apenas usar a mão na altura do peito ou do quadril para impedir um adversário de avançar com a bola.

Contexto: entre 1967 e 1976 houveram duas grandes ligas de basquete nos Estados Unidos. A NBA era conhecida por um jogo mais físico, com defesas fortes e dominada por grandes pivôs. A ABA, por sua vez, era uma liga com jogo mais plástico, baseado em como era jogado nas quadras das periferias de Nova York. Em 1976 ocorre a fusão das duas ligas e, antevendo o interesse do público por um jogo mais dinâmico (muito por conta do principal nome da época, Julius “Dr. J” Erving), restringe a fisicalidade da modalidade.

Resultado: o jogo seguiu sendo dominado por grandes pivôs, mas permitiu que nomes como Julius Erving, Magic Johnson e Larry Bird tivessem mais liberdade para executar sua proposta de jogo, ajudou a formar uma geração de jogadores com fundamentos mais aprimorados e permitiu que um jogo mais plástico fosse executado, o que ajudou a aumentar a popularidade do basquete.

2 – 1994-95

Regra: hand-check definitivamente eliminado entre a linha de fundo e a linha de lance-livre adversária, ou seja, só era permitida defendendo dentro do garrafão

Contexto: Michael Jordan havia dominado e popularizado o basquete como nunca havia acontecido antes. A liga gostaria que surgissem jogadores com um estilo semelhante ao de Jordan e, com isso, favoreceu o jogador que atacava a bola no perímetro, de forma que esse tivesse mais liberdade para infiltrar.

Resultado: Jordan retornou à liga no meio dessa temporada e o seu domínio completo nos anos seguintes certamente teve contribuição dessa nova restrição. A mudança também ajudou a aumentar o número de jogadores de perímetro que se destacavam com esse estilo, como Kobe Bryant, Vince Carter, Tracy McGrady, Steve Francis e afins.

3 – 2004-05

Regra: hand-check definitivamente eliminado em todos os cantos da quadra, inclusive no garrafão. Além disso, faltas de bloqueio ficaram mais rígidas e implementação da regra de 3 segundos defensivo.

Contexto: Após ser proibida por 54 anos, a defesa por zona foi liberada na temporada 2000-2001. O objetivo era acelerar o jogo (gerando mais steals), estimular mais movimentação de bola e trabalho em equipe e impedir que a dominância de Shaquille O’Neal fizesse o jogo voltar a uma era de grandes pivôs. No entanto, o que se viu foram defesas dominantes e “pouco divertidas” como as do Detroit Pistons e San Antonio Spurs dominando a liga, reduzindo drasticamente a pontuação e pace do jogo. A NBA começou a perder audiência e espectadores e se viu obrigada a modificar novamente as regras para dificultar que zonas fossem adotadas.

Resultado: Jogadores mais rápidos foram altamente favorecidos com a mudança em relação aos mais encorpados, pois passaram a ter uma vantagem muito grande (considerada até injusta por alguns especialistas) em relação aos seus marcadores. Isso acabou dando uma vantagem aos jogadores de perímetro em relação aos grandes pivôs. Com jogadores mais rápidos se destacando, tornou-se cada vez mais frequente (até ficar indispensável) trocar o uso de dois jogadores de garrafão por um jogador mais rápido que flutuasse na linha de três (o famoso stretch four). Logo, espaçar a quadra para permitir jogadas em velocidade passou a ser o mote da liga, e jogadores que não conseguissem fazer isso por não ter bom arremesso acabaram tornando-se obsoletos. Chegou-se ao ponto de também ser exigido dos pivôs capacidade de espaçamento e bom passe até chegar ao ponto de como se joga basquete nos dias de hoje.

Favoreceu jogadores de perímetro

Não é exagero afirmar que os jogadores mais rápidos e habilidosos no perímetro foram favorecidos com a regra. Quer prova? Vejamos a lista de todos os MVPs da liga após a mudança de regra a partir da temporada 2004-05. São todos jogadores muito focados em jogo no perímetro, infiltradores ou arremessadores:

2004–05: Steve Nash

2005–06: Steve Nash

2006–07: Dirk Nowitzki

2007–08: Kobe Bryant

2008–09: LeBron James

2009–10: LeBron James

2010–11: Derrick Rose

2011–12: LeBron James

2012–13: LeBron James

2013–14: Kevin Durant

2014–15: Stephen Curry

2015–16: Stephen Curry

2016–17: Russell WestbrookImage titleNessa lista, destaca-se que logo após a mudança de regra, Steve Nash levou o prêmio duas vezes. Ele foi o primeiro armador a ser MVP desde Magic Johnson, ainda nos anos 80, e isso que Magic era muito maior e tinha um jogo mais completo. Isso não é demérito algum a Nash, que apenas jogou conforme as regras de sua era. Mas é realmente possível comparar jogadores antes e depois desta mudança?

Dirk Nowitzki é o único atleta da lista que não é um ala ou um armador, e mesmo assim é um dos jogadores na história da NBA que foram mais proficientes em jogo de perímetro e arremessos. Em treze temporadas, oito atletas levaram o prêmio. Todos jogadores de perímetro. Para efeito de comparação, vamos analisar os treze MVPs imediatamente anteriores à última mudança da regra, que travou de vez os defensores de perímetro:

1991–92: Michael Jordan

1992–93: Charles Barkley

1993–94: Hakeem Olajuwon

1994–95: David Robinson

1995–96: Michael Jordan

1996–97: Karl Malone

1997–98: Michael Jordan

1998–99: Karl Malone

1999–00: Shaquille O'Neal

2000–01: Allen Iverson

2001–02: Tim Duncan

2002–03: Tim Duncan

2003–04: Kevin Garnett

São nove jogadores em treze campanhas. Destes, apenas Michael Jordan e Allen Iverson eram jogadores de perímetro. De resto, uma dominação de jogadores de força, entre pivôs e alas-pivôs. Nada reflete mais o efeito da mudança nas regras do que a eleição dos MVPs da liga.

A intenção era melhorar o espetáculo

A NBA sempre dominou com maestria a perfeita intersecção entre o esporte e o entretenimento. Dessa forma, as mudanças nas regras da liga sempre foram condizentes com o que deixaria o jogo mais dinâmico, divertido e de acordo com o gosto do público apaixonado pelo basquete. Basicamente, a NBA achou que as defesas estavam ficando muito fortes, e placares em jogos de playoffs abaixo dos 80 pontos para cada time estavam se tornando comuns. O Detroit Pistons que foi campeão em 2003-04 era o símbolo máximo disso.Image titleFoi esta mudança de paradigma que a liga buscou ao ir adaptando as regras de hand-checking ao longo dos anos. Jogadores de perímetro sempre foram mais ou menos favorecidos em períodos diferentes, resultado do que a NBA enxergava como um jogo mais divertido para quem assistisse. É necessário ter esse contexto em mente ao se comparar jogadores de diversas épocas para não enviesar a análise, e é aí que chegamos ao ponto principal.

É impossível comparar diferentes eras

Se as regras de defesa eram tão diferentes, como é possível comparar jogadores de perímetro antes e depois da mudança? Não há nem como falar em melhor ou pior, o terreno em que um atuava é completamente diferente do cenário que o outro precisa enfrentar. Claro que os grandes jogadores se adaptariam a qualquer época, mas a maneira como atuaram vai se refletir na época em que jogaram.

Por isso, tendo em mente todo esse contexto, fica evidente que antes da mudança de regras, não se poderia jogar tão focado em bolas de três como hoje, por exemplo. Então como comparar os números de arremesso de um jogador dos anos 90 com um da atualidade? Como comparar a atuação de jogadores menores de hoje com os do passado? Outro ponto é que, com os defensores não podendo mais utilizar as mãos, os jogadores ofensivos é que o estão fazendo, como forma de criar espaço, sabendo que o defensor não poderá reagir.Image titleAo mesmo tempo, como comparar a atuação de pivôs do passado com as de hoje? É evidente que, havendo maior dificuldade para infiltrar ou arremessar, os jogadores de perímetro seriam mais focados em tentar acionar jogadores na área pintada via passes e jogariam em função deles.

Por fim, como comparar jogadores de defesa e esquemas defensivos antes e depois da regra? Com menos ação dos defensores permitidas, o que se viu foi um afrouxamento das defesas, favorecendo ainda mais os jogadores de perímetro. Isto não quer dizer que os defensores de hoje, individualmente, são melhores ou piores que os de antes, mas é um fato que sua atuação é muito mais limitada pelas regras vigentes.

A mudança nas regras de marcação no perímetro mudou demais o basquete praticado na NBA, e com isso enterrou qualquer possibilidade de comparar de maneira objetiva as performances individuais de jogadores antes e depois da mudança. O cenário enfrentado por cada um deles era outro completamente, nos dois lados da quadra. Por isso, vale sempre lembrar: não adianta compararmos grandes jogadores em busca de classifica-los entre si, elegendo quem é o melhor. Se nos contentarmos em apenas admirar todos os grandes atletas que temos a oportunidade de acompanhar, o esporte se torna muito mais prazeroso.Image title

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