A situação de Ja Morant com o Memphis Grizzlies chegou a um ponto tão delicado que a franquia suspendeu, por um jogo, o melhor e mais popular jogador de sua história por conduta prejudicial ao time. Incomodado com o novo padrão de rotações do técnico Tuomas Iisalo — com mais substituições e minutos mais curtos em quadra —, Morant tem demonstrado insatisfação em entrevistas pós-jogo, sem assumir responsabilidade, menos de seis meses depois de ser apontado como um dos motivos centrais para a saída do antigo treinador.
Mesmo assim, qualquer notícia sobre “mercado por Ja Morant” esbarra na mesma realidade: o interesse da liga existe, mas é bem menor do que seria há dois ou três anos. Quando está no auge, parar Morant é como tentar pegar borboleta com um par de hashis: ele é explosivo, ágil, imprevisível. O problema é que esse “melhor Ja” aparece cada vez menos, enquanto as fragilidades ficam escancaradas: ele continua sem arremesso confiável, ainda é um defensor fraco e, hoje, lidera a liga em on-ball usage (45,4%), mas com pouca eficiência.
Nesta temporada, Morant converte apenas 44,8% dos arremessos de dois e um alarmante 14,8% nas bolas de três, em um ataque que é 5,1 pontos por 100 posses abaixo da média da liga quando ele está em quadra. É um pacote complicado: produção volátil, encaixe duro e um contrato de 126,5 milhões de dólares garantidos até 2028. Difícil enxergar times abrindo cofres e gavetas de escolhas de Draft por esse cenário.
Ainda assim, vale imaginar como seriam três trocas hipotéticas por Morant — exatamente porque os retornos projetados, bem mais baixos do que muitos imaginariam alguns anos atrás, ajudam a enxergar onde seu valor está hoje.
1. Chicago Bulls aposta na recuperação de Ja
Proposta hipotética
Bulls recebem: Ja Morant
Grizzlies recebem: Coby White e Zach Collins
Do lado do Chicago Bulls, o movimento é um mix de ousadia e risco calculado. A franquia adicionaria cerca de 9 milhões de dólares à folha nesta temporada, mas continuaria abaixo da linha de imposto. A grande questão é o compromisso de dois anos seguintes: mais de 87 milhões em Ja Morant, travando parte da flexibilidade salarial.
O argumento pró-Bulls é simples: em termos de talento puro, Morant ainda é um dos armadores mais perigosos da NBA quando está focado. Em um cenário no qual Josh Giddey converte perto de 40% de suas bolas de três e Matas Buzelis desponta como ala moderno, dá para imaginar um ataque bem divertido, com alto teto ofensivo, se Ja se reencontrar. Coby White é um bom armador, mas está a caminho de um contrato que pode, em valor total, se aproximar ou até superar o de Morant.
A questão emocional é outra: a torcida do Bulls, finalmente em um lugar mental mais saudável, poderia ver isso como um retrocesso, uma aposta arriscada em um jogador com histórico recente problemático e que pode travar um núcleo jovem promissor. Em contrapartida, o upside de ter um Ja “arrumado” numa conferência Leste aberta pode ser tentador demais para ignorar.
Para o Grizzlies, seria uma forma de:
- ter um armador capaz de arremessar;
- destravar parte da folha salarial;
- reposicionar o time ao redor de um núcleo mais estável — e, possivelmente, com duas escolhas de loteria num próximo Draft.
2. Phoenix Suns: Morant por Jalen Green
Proposta hipotética
Suns recebem: Ja Morant
Grizzlies recebem: Jalen Green
Essa ideia funciona quase como um balde de água fria em qualquer expectativa de “pacote gigante” por Morant. Jalen Green, embora inconsistente, ainda é visto como um jovem com potencial de pontuação e explosão física. Trocar Ja por Green seria, na prática, uma espécie de “recomeço geracional” para Memphis, apostando em um guard mais jovem, com menos peso de histórico e contrato.
O ponto é que o próprio Phoenix Suns poderia olhar para a comparação entre os dois e, mesmo assim, dizer “não”. A diferença de idade pesa; o encaixe teórico ao lado de Devin Booker também. Morant precisaria da bola nas mãos em grau muito alto, enquanto a ideia em torno de Booker sempre foi cercá-lo com peças complementares que espaçam a quadra e defendem, não necessariamente outro handler de alto volume e baixo arremesso.
Para o Grizzlies, seria quase um reset simbólico: abrir mão de uma antiga face da franquia por um talento em estágio anterior, apostando que, com tempo e ambiente, Green poderia deslanchar num contexto com menos holofotes do que Houston e com uma estrutura mais consolidada (se Memphis conseguir mantê-la).
3. Minnesota Timberwolves: dupla insana com Anthony Edwards
Proposta hipotética
Timberwolves recebem: Ja Morant
Grizzlies recebem: Jaden McDaniels, Rob Dillingham e Mike Conley
Esta é, provavelmente, a troca mais intrigante no papel e, ao mesmo tempo, a menos provável na prática. O Minnesota Timberwolves vive ótima fase, não está desesperado, e abrir mão de Jaden McDaniels — candidato precoce a Most Improved Player e um dos defensores de perímetro mais valiosos da liga — seria um preço gigantesco. Mas a pergunta que fica é: qual é o plano de longo prazo da franquia na posição de armador?
Um quinteto com Ja Morant, Anthony Edwards, McDaniels (ou seu substituto), Julius Randle e Rudy Gobert seria um terror físico, explosivo e agressivo, porém com sérias dúvidas em termos de espaçamento. Mesmo assim, a ideia de ter uma das backcourts mais atléticas da história é tentadora. O passado recente prova que o ceticismo com o fit nem sempre se concretiza — muitos duvidaram do Wolves após a saída de Karl-Anthony Towns, e o time ainda assim chegou à final de conferência.
Para Memphis, o retorno seria robusto: Mike Conley traz liderança e estabilidade imediata, McDaniels é um wing de elite para construir o próximo núcleo e Rob Dillingham, mesmo com início irregular, ainda carrega valor de loteria. Também seria uma forma de o Grizzlies admitir que está na hora de virar a página e reconstruir sua identidade defensiva e ofensiva em torno de outras peças.
Por que Ja Morant provavelmente não será trocado agora
Juntando todos esses cenários, uma coisa fica clara: o retorno por Ja Morant hoje seria muito menor do que o talento bruto dele sugeriria alguns anos atrás. Motivos:
- contrato alto e longo, com mais de 120 milhões garantidos;
- falta de evolução em pontos fundamentais de jogo (arremesso e defesa);
- produção ofensiva com grande volume, mas baixa eficiência;
- histórico recente de problemas de postura, vestiário e relação com técnicos.
É por isso que, ao contrário do caso de Kyrie Irving no Brooklyn Nets, em que ainda foi possível arrancar dois jogadores de rotação e uma escolha de primeira rodada, o mercado por Morant é bem mais frio. Ele continua sendo um talento único, mas pouco maleável, caro, fisicamente frágil e cercado de dúvidas extracampo.
Nada disso impede times de sonharem com uma versão revivida de Ja — explosivo, focado, devastador em transição e pick-and-roll. Mas ajuda a explicar por que, mesmo com toda essa especulação, a aposta mais segura ainda é a de que o Memphis Grizzlies tente, ao menos por mais tempo, resolver a crise internamente em vez de trocar sua estrela em baixa por um retorno que dificilmente agradaria à torcida ou à própria direção.



